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Resumo: A entrevista apresenta Hellen Pabline Leal Conceição, vencedora do Prêmio ProfHistória de Melhor Dissertação 2025 (turma 2023), autora de “Sejamos todas/os professoras/es antirracistas”. Ancorada em feminismos negros (bell hooks, Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro, Grada Kilomba, Angela Davis, Chimamanda Adichie), a pesquisa articula ensino de História, reparação simbólica e transformação social nos anos iniciais. Em Teresina (PI), Hellen desenvolveu o projeto “Personalidades Negras que Marcaram a História” com turmas de 5º ano, utilizando livros infantis e bonecas abayomi para trabalhar representatividade, identidade e pertencimento.
O Prêmio ProfHistória de Melhor Dissertação celebra, anualmente, pesquisas de destaques produzidas no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História. O programa de rede nacional, que reúne 39 instituições de ensino superior espalhados pelo país, entre os cursos de mestrado e doutorado, apresenta um leque variados de pesquisas que têm impactado positivamente o cotidiano escolar no Brasil. Na edição de 2025, que premia os trabalhos da turma de 2023, o trabalho de Hellen Pabline Leal Conceição ficou em primeiro lugar, ao refletir como o ensino de história pode ser também uma forma de reparação simbólica e de transformação social. Sua dissertação “Sejamos todas/os professoras/es antirracistas: ensino de História e interlocuções dos pensamentos feministas negros para os anos iniciais do ensino fundamental” reafirma a força das mulheres negras na produção do conhecimento histórico e educacional.
Natural de Caxias (MA), Hellen Pabline Leal Conceição iniciou a graduação em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) em 2012, após aprovação pelo ENEM de 2011 na modalidade de cotas. Atualmente, atua como professora nos anos iniciais do ensino fundamental em uma escola particular de Teresina (PI), lecionando História e Geografia. Concluiu seu mestrado em 20 de abril de 2024, no Programa Profhistória pela Universidade Estadual do Piauí (ProfHistória/UESPI – Campus Parnaíba). Sua dissertação, orientada pela Profa. Dra. Joseanne Zingleara Soares Marinho, foi indicada para publicação e recebeu nota máxima pelo mérito educacional, historiográfico e social.
Ao longo da formação e da trajetória docente, Hellen consolidou uma identidade como mulher negra e articulou sua prática ao ensino de História antirracista, em diálogo com os pensamentos feministas negros. Revisitando sua própria trajetória, Hellen construiu sua dissertação propondo um diálogo entre o ensino de História e os pensamentos feministas negros, partindo do olhar de uma educadora que reconhece em sua cor, gênero e trajetória, as marcas de um país ainda profundamente racializado.
Inspirando-se em autoras como bell hooks, Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro, Grada Kilomba, Angela Davis e Chimamanda Adichie, Hellen propõe um diálogo que intersecciona raça, gênero e ludicidade no ensino de História. O trabalho se concretiza na experiência do projeto “Personalidades Negras que Marcaram a História”, desenvolvido com turmas do quinto ano da Escola Municipal Professora Cristina Evangelista, em Teresina (PI). Utilizando livros infantis e a confecção de bonecas abayomi, a professora discutiu representatividade negra, identidade e pertencimento com as crianças.
Em conversa com o ProfHistória, Hellen falou sobre sua trajetória, os desafios e as motivações que orientaram sua pesquisa.
Profhistória: Hellen, nos fale Como você conheceu o ProfHistória e o que te motivou a ingressar no programa?
Hellen Pabline Leal Conceição: Conheci o ProfHistória por indicação de uma amiga, também professora de história. Nós conversávamos sobre o desejo de aprofundar nossos estudos e fazer um mestrado que dialogasse com o nosso cotidiano na docência, quando ela mencionou esse programa que havia conhecido em uma palestra. Achei imediatamente interessante a proposta do ProfHistória de valorizar a professora/professor também como pesquisadora/pesquisador e, no ano seguinte, em 2011, tentei a seleção.
ProfHistória: Sabemos que é difícil conciliar o cotidiano da sala de aula com a pesquisa, contudo, essa própria experiência cotidiana pode ajudar no processo de reflexão. Como foi viver essa experiência de conciliar a docência e a pesquisa no ProfHistória?
Hellen Pabline Leal Conceição: Foi um desafio, mas também um percurso de muito aprendizado. As professoras e professores do polo UESPI/Parnaíba foram de grande importância ao longo de todo esse processo. As disciplinas ministradas, os textos escolhidos e as abordagens adotadas foram pensadas para auxiliar na escrita acadêmica e na elaboração do conhecimento. O espaço escolar, nosso lugar de vivência, pôde ser utilizado como espaço de pesquisa. Um ponto fundamental em minha experiência, e que acredito ser importante frisar, foi a preocupação que o programa teve em organizar com antecedência a disposição das disciplinas. Dessa forma, antes de o período letivo do ensino básico começar, já tínhamos ciência dos dias em que seriam distribuídas tanto as disciplinas obrigatórias quanto as optativas. Isso, para mim, foi de fundamental importância, pois pude ajustar meus dias de trabalho e estudo e, assim, consegui cursar as disciplinas sem prejuízos de choque de horários. Pensar a organização do curso e a socialização das informações com antecedência para o seu público, que abrange diversos grupos sociais com suas próprias especificidades, foi uma demonstração de comprometimento muito grande com o ensino e a pesquisa.
Profhistória: Sua escrita combina teoria e prática, unindo vivências, escuta e escrevivência. A dissertação evidencia que o combate ao racismo precisa começar cedo, ates que a criança negra aprenda a se ver de forma inferior. Quais foram os principais aprendizados dessa trajetória do mestrado profissional?
Hellen Pabline Leal Conceição: Relembrar que a/o professora/professor também é um pesquisador em sala de aula. Esse foi um dos aprendizados mais importantes para mim, pois me senti valorizada enquanto profissional ao longo do percurso do mestrado. Nós levantamos hipóteses, nos deparamos com situações-problemas, avaliamos, relacionamos conhecimentos diversos, experimentamos e produzimos conhecimentos. O ambiente acadêmico universitário ainda guarda uma distância muito grande do ambiente escolar. No entanto, com o ProfHistória, vi esses universos se aproximando, dialogando. Aprendi o quão necessário e possível é estabelecer aproximações entre as narrativas históricas e o ensino de história, pois pensar um projeto de sociedade e de ser humano é também refletir sobre o nosso sistema educacional e construir uma educação comprometida com a transformação social nos vários níveis de ensino. Dessa forma, no mestrado profissional vi a valorização do ambiente escolar enquanto um espaço complexo e que deve receber também esse olhar como ambiente de pesquisa no campo da História. No ProfHistória, também aprendi a lançar um olhar mais amplo para a ciência História e a constituição do campo historiográfico, a partir do compromisso que as/os professoras/professores estiveram promovendo discussões atualizadas do campo das humanidades. Por exemplo, conheci os estudos decoloniais ao longo do mestrado e me aprofundei nas discussões teóricas proporcionadas por pensadoras negras, o que gerou em mim mudanças significativas em minhas construções de percepções de mundo, de educação e de pesquisa.
Profhistória: Como soube da seleção do Prêmio ProfHistória de Melhor Dissertação, como você e sua orientadora decidiram fazer a inscrição?
Hellen Pabline Leal Conceição: Recebi um incentivo muito grande da minha professora-orientadora, Dra. Joseanne Zingleara Marinho, que me acompanhou com um olhar atento por todo o percurso de pesquisa e escrita. Sua dedicação, acolhimento, sabedoria e organização deram a esse trabalho dissertativo a possibilidade de existir da forma como foi apresentado à seleção do Prêmio ProfHistória de Melhor Dissertação. Nós acreditamos muito no trabalho que foi desenvolvido e o levamos para a seleção a fim de vivenciar essa oportunidade.
Profhistória: Fale-nos um pouco de sua trajetória e que significou para você receber o primeiro lugar nesse prêmio?
Hellen Pabline Leal Conceição: Significou uma vitória muito grande para mim e minha família. Eu sou natural de Caxias, cidade do Maranhão, e migrei para Teresina, capital do Piauí, para cursar Licenciatura em História na UFPI. Então, todo esse processo de deslocamento foi desafiador. Morar em uma cidade nova, arcar com os custos financeiros que advêm disso (vindo de uma família com baixo poder aquisitivo), ficar longe dos familiares mais próximos, conhecer novas pessoas, passar por um processo de constituição de me entender enquanto uma mulher negra e estudar… tudo isso foram camadas desafiadoras. Pensar nessa premiação me faz celebrar uma vitória que é nossa! Minha mãe e meu pai são incentivadores constantes para que eu e minha irmã continuemos estudando, e é muito importante receber esse reconhecimento. Receber essa premiação me emociona muito, pois reflete um compromisso de todo o corpo docente do ProfHistória, polo UESPI/Parnaíba, com o ensino e a pesquisa, que me incentivaram, acolheram, mostraram caminhos e torceram por mim. A educação mudou minha vida. O acesso ao ensino público básico, universitário na graduação e na pós-graduação, são marcos importantíssimos na minha trajetória; tive essa grande felicidade. Agradeço imensamente à instituição pública de ensino de Teresina que me acolheu, à minha família, às/aos amigas/amigos e companheiras/companheiros de profissão pelo acolhimento nesse percurso.

